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segunda-feira, 13 de junho de 2011

a realeza dos Tenenbaums (resenha)


Dirigido por Wes Anderson (EUA, 2001) e co-escrito por ele mesmo e Owen Wilson, ator que trabalha no filme, trata-se de uma fabulosa narrativa sobre a excêntrica e ligeiramente decadente família dos Tenenbaums. Isso pode soar entediante, como mais uma entre tantas produções sobre a neurose cotidiana do povo norte-americano... mas é exatamente o contrário!




Costurando elementos de épico literário, drama clássico, reflexão filosófica, humor irônico e non-sense, desenvolvendo-se em um ritmo inusitado e envolvente, apresentado como um livro dividido em capítulos, a história supera os limites de sua categoria.

Lembrando levemente a versão cinematográfica de A família Adams (Sonnenfeld, EUA, 1991), ... Tenenbaums foi criado com base em uma obra de Orson Wells, Os magníficos Ambersons, e também em alguns contos de Jerome D Salinger, A família Glass (ou "a família Vidro", se traduzido literalmente).

O título é intraduzível, como de costume em filmes inteligentes, pois tem mais de um sentido: pode ser tanto "os reais Tenenbaums", quanto uma referência ao ao patriarca desgarrado que tenciona se reaproximar dos entes queridos, que tão pouco soube valorizar ao longo de sua vida, o Sr Royal Tenenbaum. Ele é interpretado pelo inigualável Gene Hackman, e confrontado com ninguém menos que a imbatível Anjelica Huston, que interpreta a matriarca Etheline Tenenbaum.




A atuação marcante do elenco, que inclui Bill Murray, Gwyneth Paltrow, Danny Glover e outros astros já consagrados, vem combinada com uma esplêndida trilha sonora, que conta com Beatles, Rolling Stones, etc. maestralmente posicionados nos momentos mais precisos. Aliás, de nada adianta descrever os componentes isolados de ... Tenenbaums, pois talvez a maior riqueza da obra esteja exatamente no ritmo impresso pela edição, que tornou a trama muito consistente. Em outras palavras, é necessário conhecer em primeira mão!

O que dizer mais de The Royal Tenenbaums, que não seja "spoiler" (informação que estraga se contar antes)? Tudo é muito bem feito neste filme: roteiro original, ótimos atores, fotografia inteligente, edição primoroza. O resultado... é sem comparação!



domingo, 12 de junho de 2011

Balada Triste de Trompeta (resenha)


Balada Triste de Trompeta é o novo filme do espanhol Álex de la Iglesia, do ótimo "O Dia da Besta".

Neste filme, Iglesia usa o universo circense e nos presenteia com uma belíssima tragédia romântica. Prato cheio para o dia dos namorados (esteja você sozinho ou acompanhado).

Usando a alegoria dos palhaços para definir o perfil de seus personagens, cria um perfeito "triângulo odioso". O palhaço triste e o palhaço tonto, disputam o amor da bela trapezista Natália, que alheia ao cenário que se instaura, não consegue prever a catástrofe iminente. Personagens caricatos que ao longo do filme se transformam e se perdem entre a redenção e a destruição.

Balada Triste de Trompeta é um filme que nos mostra como aquilo que mais gostamos, às vezes também é aquilo que nos consome. Nos mostra que na vida, existe uma tênue linha, entre ser o palhaço que se dá bem ou o palhaço que se dá mal.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

de primeira classe (resenha)





Para os admiradores de Wolverine, X-Men – Primeira Classe é a prova de que ele não é indispensável para que se faça um grande filme sobre os heróis mutantes.



O filme segue a onda do momento em Hollywood, mostrar como tudo começou, são os chamados prequels. Bons exemplos recentes dessa leva são “Batman Begins” e o último “Star Trek”. Entretanto, nenhum desses dois filmes alcança a excelência de X-Men – Primeira Classe.



O filme tem um início idêntico (muito parecido para ser mais honesto) com o do primeiro filme: Segunda Guerra Mundial, Polônia, 1944. Só que agora se apresenta como começou a história de Erik “Magneto” (interpretação marcante de Michael Fassbender), o futuro grande vilão da saga. Aliás, a interpretação e a qualidade dos personagens principais é um dos grandes prazeres de ver este filme.



Professor Charles Xavier (James MacAvoy), Erik (Fassbender) e o vilão Sebastian Shaw (Kevin Bacon, que faz pensar que não há melhor escolha para o papel) se unem através de um arco dramático construído no estilo das melhores tragédias já encenadas. Shaw é um nazista com mente e coração nazistas, mas muito longe de ser interpretado de um modo caricato, pelo contrário, tem toda a classe e inteligência dos melhores vilões. O Professor Xavier é um Charles Darwin com profundo entendimento e confiança no (do) “humano”. Erik é o homem triste movido unicamente por um sentimento de vingança contra Shaw. A partir do encontro dessas três visões e sentimentos de mundo, surgirão todos os conflitos que tornam essa história o que muitas vezes a vida não é, verossímil.



É fascinante acompanhar o desenrolar da trama sabendo como as coisas vão terminar (X-Men - O Confronto Final). Tudo tem um forte combustível humano para explicar e justificar os comportamentos e as mais angustiantes escolhas: ódio, dor, medo, ressentimento, amor, compaixão.



A edição é primorosa ao ligar todas as informações e todos os personagens de maneira elegante, inteligente. Há a concisão de um conto de Hemingway e a fluidez de um romance de Ian McEwan a serviço de uma história com o peso de uma peça de Shakespeare.



“Primeira Classe” tem um trabalho de direção impecável de Matthew Vaughn (responsável pelo também excelente Kick Ass). Sabe ser discreto na hora certa e sabe, acima de tudo, que a imagem deve estar a favor da narrativa, ou melhor dizendo, que no cinema a imagem é a melhor forma de narrar. A cena em que o Professor Xavier enxerga a lembrança mais alegre de Erik é comovente, mostrando que cinema são lágrimas; a cena em que Erik ergue aos céus um submarino é espetacular, mostrando que cinema é mágica.



Ao final da sessão ficam duas certezas: que dificilmente será exibido um filme melhor nos cinemas este ano e que poucos filmes com humanos são tão “humanos” quanto este filme com mutantes.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Hedwig e a polegada raivosa (resenha)


Hedwig Robinson não está acorrentad@ em uma rocha do cáucaso grego, despedaçad@ por um raio fulminante, ou pregado em uma cruz -- Hedwig pousa no palco!!! Herói /heroína de tod@s @s condenad@s por crime nenhum, é "solidári@ com tod@s @s desajustad@s e perdedores /perdedoras do mundo".

Hedwig and the angry inch




Personagem tão imensamente lúgubre quanto glamouros@ e fascinante, Hedwig se posiciona acima dos mortais através da glória da Arte, enche os olhos e ouvidos ao interpretar sua tragetória trágica de vida, seus encontros, sonhos e sofrimentos, transubstanciados nas belíssimas canções que compõe. Lembra em certos aspectos o Tommy (Reino Unido, 1969 /1975), da banda "The Who", e o rock-star "Vampiro Lestat", na segunda crônica de Anne Rice (EUA, 1985), e ainda um pouco da ironia provocativa e estranheza cativante das composições de Pedro Almodóvar.

Hedwig é interpretad@ pelo próprio diretor do filme, John Cameron Mitchell (EUA, 2001), que adaptou a história de um musical homônimo, criado por ele mesmo. Impressionantemente, Mitchell também canta, inclusive havendo gravado realmente o vocal enquanto as cenas eram filmadas; posteriormente, trabalhou com a banda na trilha sonora do filme.

Vítima de uma imposição do "mundo correto" ("straight world", trocadilho impossível no português, que poderia ser traduzido como "mundo hétero hegemônico"), Hedwig é mutilado em seu corpo e em sua identidade. A revelação do que significa a "polegada raivosa" é ao mesmo tempo desconcertante, impressionante e esclarecedora. Hedwig dá voz à sexualidade humana de forma incomparável, reeditando o discurso de Aristófanes no Simpósio de Platão: o mito das esferas perfeitas que foram partidas em duas para toda a eternidade, derivando em seres bípedes que sofrem a falta de sua outra metade -- ou seja, nós seres humanos.

A canção "A origem do amor" é uma narrativa de um sujeito transgenérico, palavra com a qual se reconhece todas as pessoas identificáveis como heterossexuais, homossexuais, bissexuais, panssexuais, polissexuais, assexuais /abstêmias, ou quaisquer outras categorias que a imaginação coletiva humana pode conceber para tentar descrever o complexo de relações eróticas e afetivas que, afinal, são algo tão simples e vivo: a nossa bela e trágica condição humana da necessidade e busca pelo amor. Além disso, a mescla de deuses de diferentes panteões clássicos garante ao ato uma dimensão de uma típica alegoria contemporânea, globalizante.

Como toda boa ficção, esta obra ímpar nos mostra situações inusitadas, insólitas, com as quais a grande maioria da audiência não pode se identificar pessoalmente, dentro dos fatos concretos de sua vida -- porém, exatamente dentro desse estranhamento é que enxergamos o AMOR como ele é na vida real, repleto de desencontros e decepções, de imperfeições e ilusões, de riquezas inestimáveis, sofrimentos irrecuperáveis e frutos irrecusáveis!



(agradecimento ao Bruno Campelo, o pelotense que me indicou essa magnífica peça de arte)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Rio – o filme: contemporaneidade na produção e retrocesso na ideia (resenha)



As animações têm seu encanto especial. E, não obrigatoriamente, significa a libertação da criança que há nos adultos. No Brasil, os curtas-metragens de  animação têm invadido festivais e conquistado diversos prêmios, como A Garota, do diretor Fernando Pinheiro e Leonel Pé de Vento, do gaúcho Jair Giacomini.

Nas telonas cinematográficas comerciais, recentemente esteve em cartaz Rio – o filme, dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha. A história se passa no Brasil – claro, o país das próximas Olimpíadas e Copa do Mundo – e trata do tráfico de animais silvestres. Porém, de uma forma sutil, no que tange a violência. Os criminosos são atrapalhados e oportunizam mais graça do que raiva ao espectador. Há um fundo romântico, para contrastar com o tema denso.

Os desenhos bonitos, um colorido excelente, o tema atual e um grande estúdio abriga a produção, entretanto, a retratação do país defasada. O Rio de Janeiro é uma terra de macacos; no Carnaval tudo para, inclusive a ponto de deixar os criminosos em dúvida quanto à prática do crime ou a festa, e, obviamente, muitas mulheres com pouca roupa pelas ruas, em meio ao trânsito. Além disso, os amigos brasileiros que a arara azul – personagem central do filme – conquista têm uma malandragem, cada um de uma forma, que impressiona quem chega de fora. Praticamente uma modernização do Zé Carioca. Para completar, há um órfão, que mora na favela, perdeu pai e mãe, precisa ajudar a bandidagem em troca de algum dinheiro. O final, não contarei, mas há ainda uma surpresinha no estilo do que foi narrado até aqui.

A dúvida é uma: até quando, sob os olhos da sétima arte, a representação do Brasil será aquela mesma vendida na década de 40?

sábado, 14 de maio de 2011

Uma longa viagem fotográfica



Existem filmes que foram feitos para serem saboreados aos poucos.

Como uma refeição que adoramos e, por isso, mastigamos o mais devagar possível para captar cada nuance do prazer que o alimento proporciona ao nosso paladar. É assim que são esses poucos filmes.

Então, numa época em que se percebia cada vez mais a tendência de construções rápidas e descontinuadas, com experimentações de corte, cores, efeitos visuais, tal qual um fast-food de sensações; eis que um diretor húngaro decide fazer um filme em preto em branco com tomadas extensivas, cortes raríssimos e incríveis 7 horas e meia de duração.

Trata-se do filme Satantango, do cineasta Béla Tarr.


A história se passa na em uma vila húngara na década de 80. Nesse período, com o fim do comunismo, o país havia se tornado uma bagunça e seu povo perdido de qualquer perspectiva de progresso.


É aí que chega a notícia de que Irimias, um agitador político até então dito como morto, estava retornando a vila afim de fazer uma proposta de mudança para seus habitantes e causando uma serie de agitações no povoado.


O filme é dividido em 12 partes onde, nas primeiras se observa o cotidiano de cada família da vila, tecendo-se então uma trama de acontecimentos que culminarão na chegada de Irimias.

1. As Notícias Estão Chegando
2. Ressurreição
3. Para Compreender Algo
4. O Trabalho da Aranha - Parte I
5. Eles Estão Vindo
6. O Trabalho da Aranha - Parte II (O Discípulo do Diabo, O Tango de Satã)
7. A Fala de Irimiás
8. A Perspectiva da Frente
9. Indo para o Paraíso? Tendo Pesadelos?
10. A Perspectiva de Trás
11. Apenas Problemas e Trabalho
12. O Ciclo se Fecha

Depressiva, chuvosa, fría, a vila é o grande personagem filmado por Tarr, dedicando seus longos e amplos takes para extrair até a última gota as sensações de cada personagem e cenário. E ainda assim, mesmo que o "tempo" pareça parar em alguns momentos, a câmera nunca está definitivamente parada, causando algo de hipnótico e contemplativo para cada segundo que o diretor persiste numa mesma cena.



Mais do que um filme, Satantango é uma viagem longa e sem volta, um aprendizado. Uma nova maneira de se enxergar a luz e a sombra sobre as pessoas e as coisas. Uma abordagem sensível e intimista de uma realidade que só pode ser mostrada assim: lentamente, no próprio ritmo da caminhada da humanidade.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

o jogo do zodíaco (resenha)





Os grandes filmes demoram a ser descobertos. Zodíaco (2007) passou despercebido pelos cinemas, pelos festivais, pelos camelôs, pelo Pirate Bay e por todas as outras redes oficiais e clandestinas de exibição. Talvez, com o passar dos anos, o filme de David Fincher comece a conseguir parte de todo o reconhecimento que um dia vai merecer.



Os filmes de "caça ao serial killer" sempre foram tidos como um gênero menor, como filmes "B". Raramente mereceram por parte do público uma atenção que fosse além da sala de projeção. Basicamente, os espectadores esperavam por sustos e pela surpreendente revelação do final. E quanto a isso eles não podem reclamar, pois o cinema americano traz todos os anos inúmeros exemplares do gênero. Agora, um exemplar do gênero como Zodíaco é raro, se não único.




Em 1968, jornais de São Francisco, CA, começam a receber mensagens cifradas de alguém que diz ser o responsável por uma série de assassinatos acontecidas em cidades próximas. O suposto assassino, que se identifica pelo nome de Zodíaco, ameaça dar sequência aos crimes caso os jornais não publiquem as mensagens.




No filme dirigido por David Fincher (Seven, Clube da Luta) acompanhamos os jornalistas do São Francisco Chronicle, Robert Graysmith (Jake Gillenhaal) e Paul Avery (Robert Downey Jr), e os policiais David Toschi (Mark Ruffalo) e William Armstrong (Anthony Edwards) nas investigações para tentar chegar à pessoa que se esconde por trás do codinome Zodíaco.




Fincher sempre se destacou pelo primoroso trabalho técnico. Porém, nesse filme ele superou as expectativas. Desde a primeira tomada exibindo a noite de São Francisco iluminada pelos fogos de artifício é impossível não dizer que poucos trabalhos de fotografia no cinema conseguiram captar de forma tão esplendorosa um cenário urbano. Juntamente com a fotografia de Harris Savides, os trabalho de direção de arte e de figurino conseguem ir além das monótonas reconstituições de época. A sensação ao assistir a Zodíaco é de estar vendo um filme que foi rodado na década de 60 com a tecnologia do século XXI.




Impressiona a facilidade com que o filma transita por vários gêneros, passando do terror para a comédia e da comédia para o drama de forma bastante convincente. Aliás, grande parte da força do filme se deve a alternância de situações dramáticas e cômicas, onde o diretor consegue construir um jogo de contrastes que causa surpresa e nervosismo no público. Difícil não ficar aflito com a cena que mostra um casal de namorados sendo atacado de forma tão violenta na beira de um lago em uma bela tarde de primavera. É como colocar um filme de terror dentro de uma comédia romântica.




Apesar de as sequências de assassinato estarem presentes e serem muito bem construídas, elas são secundárias no filme. O que interessa ao diretor é explorar a obsessão dos personagens para descobrir quem é o Zodíaco. Esse enfoque revela uma evolução do cinema de Fincher se comparado ao seu primeiro filme policial. Em Seven as angústias dos personagens ficavam em segundo plano com relação ao jogo sádico do assassino, em Zodíaco o jogo é figurativo e os personagens são a essência.



O que contribui para essa escolha do diretor é o excelente trabalho do elenco. Principalmente de Robert Downey Jr, que interpreta o jornalista Paul Avery com total naturalidade, mostrando que atuar vai muito além de usar o verbo e as lágrimas.



Outro destaque é o roteiro escrito por James Vanderbilt. Ele consegue registrar de forma muito precisa todos os detalhes que envolveram o caso: o nome das pessoas, dos lugares, a coleta de evidências e a consulta de datas e documentos. Graças à mágica da edição, usada com a sabedoria de quem entende que não apenas as palavras dialogam, mas as imagens também, torna-se um prazer acompanhar um filme que durante os seus mais de 150 minutos nunca se torna confuso ou cansativo.



Zodíaco mantém o foco no processo de apuração e principalmente nas dificuldades que atrapalham ou que muitas vezes inviabilizam esse processo. Entre as quais a vaidade, que acaba colocando jornalistas e policiais em campos opostos, terminando por comprometer a investigação. O filme também ressalta de forma muito perspicaz as dificuldades de se trabalhar em conjunto numa época em que computador era artigo militar.



Ao abordar o trabalho de duas profissões que lidam com a "verdade" e que buscam obsessivamente encontrar respostas, Zodíaco parece afirmar que todas as vezes que o ego fica acima do compromisso e a tecnologia abaixo do esperado a única certeza que resta é a da dúvida.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

a dor do conhecimento




"Ágora era a praça principal na constituição da pólis, a cidade grega da Antiguidade clássica. Normalmente era um espaço livre de edificações, onde as pessoas costumavam ir configuradas pela presença de mercados e feiras livres em seus limites, assim como por edifícios de caráter público. Enquanto elemento de constituição do espaço urbano, a ágora manifesta-se como a expressão máxima da esfera pública na urbanística grega, sendo o espaço público por excelência. É nela que o cidadão grego convive com o outro para comprar coisas nas feiras, onde ocorrem as discussões políticas e os tribunais populares: é, portanto, o espaço da cidadania. Por este motivo, a ágora (assim como o pnyx, o espaço de realização das eclesias) era considerada um símbolo da democracia direta, e, em especial, da democracia ateniense, na qual todos os cidadãos tinham igual voz e direito a voto. A de Atenas, por este motivo, também é a mais conhecida de todas as ágoras nas póleis da antiguidade."


(pt.wikipedia.org/wiki/Ágora)


Ágora é o título de um filme de Alejandro Amenábar (Espanha, 2009) que narra o final da vida da filósofa, astrônoma, etc. Hipátia de Alexandria (interpretada pela ótima atriz Rachel Weisz), a qual nasceu aproximadamente entre 355 e 370 AD, e morreu em 415 AD (completou de quarenta e cinco a sessenta anos, portanto).





"Hipátia distinguiu-se na matemática, na astronomia, na física e foi ainda responsável pela escola de filosofia neoplatônica - uma extraordinária diversificação de atividades para qualquer pessoa daquela época. Nasceu em Alexandria em 370. Numa época em que as mulheres tinham poucas oportunidades e eram tratadas como objetos, Hipátia moveu-se livremente e sem problemas nos domínios que pertenciam tradicionalmente aos homens. Segundo todos os testemunhos, era de grande beleza. Tinha muitos pretendentes mas rejeitou todas as propostas de casamento. A Alexandria do tempo de Hipátia - então desde há muito sob o domínio romano - era uma cidade onde se vivia sob grande pressão. A escravidão tinha retirado à civilização clássica a sua vitalidade, a Igreja Cristã consolidava-se e tentava dominar a influência e a cultura pagãs." (Carl Sagan, em Cosmos)


Trata-se de um período pouco retratado da História, nos primeiros anos do cristianismo disseminando-se pelo império, no qual podemos ver que os cristãos deixaram de ser "pobres vítimas indefesas" já muito cedo, passando de perseguidos para o mesmo patamar de algozes desaumanos o qual combatiam. Por outro lado, o fim da escravidão formalizada consistiu no final de um sistema social em crise, o tipo de ruptura que invariavelmente resulta em ondas de violência endêmica extrema.


Ah, sim: os eventos se passam ao redor da "mítica" biblioteca de Alexandria que, na Antiguidade, foi um dos mais fabulosos resultados da expansão promovida por Alexadre, o Grande (mas isto é outra história... e outro filme também). Podemos assistir aos acontecimentos hipotéticos que levaram à tétrica destruição da biblioteca, bem como de toda escola ali desenvolvida.


E isto é interessante para as gerações atuais: dar-se conta de que hoje, a informatização tornou a perda de dados algo virtualmente impossível, porém nem sempre foi (ou ainda é) assim. O  conhecimento é acumulado dentro de certas condições econômicas, políticas, culturais... através de substratos de registro específico (na época, principalmente papiros). E assim como o pensamento crítico sempre representa uma resistência à brutalidade dos sistemas totalitários, a informação e a sabedoria sempre podem ser destroçadas pela fúria da barbárie... brutalidade e fúria ques ainda são realidades miseravelmente humanas.





Mesmo dentro deste contexto de enorme violência, o filme sofre daquele problema costumeiro da "abordagem macia" dos fatos, não revelando um quinto do tipo de crueldade que se tinha por hábito naquele período histórico, presenteando-nos com um desfecho muito mais generoso do que o que provavelmente, de fato, aconteceu.


De outro ângulo, somos presenteados com as habilidosas imagens do planeta Terra visto de fora, do espaço, o que pode ser visto como uma imagem de totalidade, demonstrando a noção de como nossos dramas fúteis são insignificantes diante da grandiosidade do cosmos -- grandiosidade acessível para uma consciência esclarecida, o que a protagonista persegue até suas últimas forças, dentro de um torvelinho de paixões e conflitos humanos.


Hipátia nos é apresentada como uma personagem feminina forte e coerente, definida por suas convicções e escolhas, não por um romance ou por não ser um homem. E isso, espantosamente, mesmo que o roteiro retrate os seus  sentimentos e relações muito próximas com alguns dos homens de Alexandria, e também a consciência dela sobre o desvalor das mulheres na época, tidas como "seres biológicamente inferiores," portanto incapazes e se destacar por meios naturais (no seu caso, em assuntos intelectuais).


A personagem tem sua profundidade acrescida de mais um degrau no momento em que, desesperada pelo absurdo da situação, ela recorre ao hábito de sua condição sócio-econômica de agredir um escravo (no caso, apenas verbalmente). Não, Hipátia não era uma santa, e seu trabalho inestimável só progrediu porque tinha escravos a seu dispor. Mas, e se pensarmos hoje, quantos de nós não dependem de pessoas em funções de "escravos" (assalariados ou quase) para manter funcionando as suas atividades mundanas?


Por fim, trocando a escravidão formal por um sistema patriarcal ainda mais rígido em muitas concepções de cidadania e humanidade, o rumo da civilização que produziu a nossa passou por perdas inestimáveis, amenizadas talvez apenas pela beleza e valor dedicados à memória daquilo que foi perdido.


O nome do filme poderia ser "Hipátia", porém creio que a feliz escolha tenha sido para enfatizar a importância do espaço público de convivência, de manifestações sobre crenças e normas, e que não está isento de ser palco de agressões, ignorância e injustiças. Podemos ver isso no nosso próprio senado hoje, por exemplo. "A voz do povo é a voz de deus" pode ser um ditado de conseqüências perniciosas...


Por sua fotografia belíssima, atores competentes e temática muito relevante -- a dor inerente a quem quer saber além daqueles que os que o cercam -- , Ágora vale muito a pena assistir.





domingo, 17 de abril de 2011

nº 4 (resenha)



Visto que nem só de originalidade e refinamento vive o cinema, vim aconselhar o despretencioso e divertido Eu sou número quatro (I am number four - Caruso, 2010, EUA).

Dentro da categoria "ação", é interessante. Ao menos escolhe um dos lados, o de crítica à sociedade norte-americana, opondo-se assim a títulos como Batalha de Los Angeles, que é essencialmente ufanista.

Filme típico por apresentar chavões e personagens prontas (vilões feios, heróis loiros, "nerd" melhor amigo do herói, o mestre morto, a namorada proibida, a escola secundária como pano de fundo, etc.), mesmo assim não chega a ser completamente previsível. E conta com boas cenas de luta, explorando com criatividade os recursos computadorizados e de acrobacias coreografadas, o que me lembrou o ótimo X-men: last stand, de Brett Ratner.

Um dos elementos mais interessantes do roteiro é a forma como as personagens lidam com a fotografia, o vídeo e o uso da Internet. Aqui, a realidade instantânea da disposição pública de imagens no ambiente virtual é central no desenrolar da trama.  Até podemos nos por a refletir sobre esta questão, da "comunicabilidade X super-exposição", realidade com a qual muit@s de nós lidamos cotidianamente.

Mas a "mensagem" pode ser também: o mundo cotidiano da maioria de nós é apenas uma ilusão feita de pequenas misérias e jogos de poder fúteis, enquanto que o mundo real oferece perigos tão absurdos os quais, quando nos perseguem, nos fazem esquecer instantaneamente o resto, feito um fogo cauterizante. Não que seja algo original pra se afirmar... nem a melhor forma. E claro, isso depende de quem interpreta.

Obviamente projetado para agradar a gregos e troianos, e também para parir seqüências e /ou um seriado de TV, Eu sou número quatro pode ser digerido junto com pipoca e Coca-Cola sem contra-indicações!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

c'est la vie (resenha)



Os filmes de James Gray provocam uma profunda experiência cinematográfica e humana. Quando um artista domina os códigos da sua arte e, além disso, consegue usar essa linguagem para abordar os mais angustiantes conflitos das relações humanas e do homem diante das suas escolhas, ele nos possibilita viver ou reviver algo que raramente o “mundo real” nos apresenta de forma tão intensa.


O espaço do cinema de Gray é o da família. O que os pais esperam dos filhos, o que os filhos esperam dos pais, o que todos esperam da vida, e afinal o que a vida tem a oferecer. Em Amantes (Two Lovers), Leonard (Joaquin Phoenix) é romântico, passional e bipolar, o que significa ser o típico personagem que dança na beira do abismo, debatendo-se perante a escolha pelo afeto e a compreensão de Sandra (Vinessa Shaw) e a paixão por Michelle (Gwyneth Paltrow).


Um grande cineasta não precisa de palavras para falar, ele usa o que a sua arte lhe oferece: uma câmera, um espaço e alguns rostos, nesse caso “todos os rostos” de Joaquin Phoenix. A câmera de Gray é a radiografia da dor, e a dor se apresenta num olhar perdido, numa foto de infância, num encontro num terraço de edifício ou num gesto de adeus.


O dilema não precisa ser dito, ele aparece num simples movimento: a câmera acompanha Sandra saindo do quarto de Leonard e retorna em direção à cama onde ele está sentado sendo guiada pelo seu olhar para a janela que mostra o apartamento de Michele. É o fluxo de consciência transformado em imagem.


A carência afetiva e a conturbação psicológica de Leonard ficam expressas numa Nova York cheia de gente, mas onde todos vivem sós na multidão. Na balada, a música alta, a dança e o agito servem como uma tentativa frustrada de abafar o silêncio, a melancolia e a sensação de abandono presentes em todo o filme porque fazem parte da natureza dos personagens (se é que também não fazem parte da natureza humana). Os silêncios e as palavras não ditas de um encontro mal-sucedido só são quebrados pelo vento gelado de um inverno que parece não ter fim (o da alma).


Em “Amantes” não há espaço para alívio cômico, cinismo, frases de efeito ou “belas declarações de amor”. Raros filmes mostram o quanto dizer “eu te amo” pode ser a coisa mais honesta, emocionante, angustiante e dolorosa de se dizer a alguém.


No final, o olhar de cumplicidade, afeto, resignação e compreensão trocado entre mãe e filho são a mais contundente constatação de que o homem e as suas escolhas, os seus desejos e sonhos são insignificantes diante da indiferença ou das escolhas, dos desejos e sonhos que a vida nos permite.

terça-feira, 29 de março de 2011

“O que é isso, companheiro?”: a repressão romantizada (resenha)

Uma introdução ao passado recente da história do país. Com direito a romance e muita licença poética. Desta forma é possível definir “O que é isso, companheiro?”, filme de Bruno Barreto, de 1997. Os personagens representam velhos conhecidos, como Fernando Gabeira, Franklin Martins e outros atores políticos atuais. No enredo, um dos fatos mais marcantes contra os militares nos 20 anos de repressão: o planejamento do sequestro de Charles Elbrick, embaixador dos Estados Unidos.

Para quem conhece bem a história do golpe militar de 1964 e suas consequências, é necessário muita paciência para a poesia. Romance, heróis e estratagemas mirabolantes que não existiram, fazem parte do roteiro. Porém para quem só tem os livros de História do ensino fundamental e médio como referência, é uma forma de compreender melhor tal período, as barbáries cometidas e os ideais dos jovens considerados, no sentido mais pejorativo, guerrilheiros. Entender os fatos de uma forma mais real é o tema de um próximo post, com outra indicação de filme.

Além disso, tal filme é um marco no cinema nacional. A partir de seu lançamento viu-se possibilidades de produções renovadas, com resultados aptos a competirem em grandes concursos cinematográficos – tendo sido, inclusive, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. A sétima arte brasileira passou a deixar de ser exclusivamente reconhecida pelo apelo sexual, abrindo espaço para argumentos e roteiros com histórias melhor desenvolvidas, assim como deixou uma porta aberta para o investimento público no setor.
P.S.: No dia 1º de abril completa 47 anos do golpe militar no Brasil. 

domingo, 27 de março de 2011

acerca do "horror" (resenha)


Afinal, porque gostamos de filmes de horror? Ok, nem todo mundo gosta e, de fato, muita gente detesta. Muita gente não vê sentido nenhum em se assustar à toa, não considera isso nada divertido, sequer saudável. E há também os que riem deste tipo de narrativa, porque pensam que é tudo bobagem, efeitos sonoros e visuais que assustam os crédulos de mente fraca.




Pensando bem, entendo realmente que a maioria das pessoas que assiste os chamados "filmes de horror" pensa isso mesmo: é tudo bobagem, é uma "emoção enlatada", como em uma comédia ou um drama, como ir à montanha russa e gritar até cansar, ou assistir a uma peça de teatro e ser parte daquele mundo imaginário durante apenas umas duas horas. Este é um sentido das histórias de horror: poder experimentar emoções angustiantes, tensão, suspense, medo, etc. só que de forma segura, sabendo que é tudo invenção e que, no final, terminado o filme, tudo volta ao normal, e podemos dar boas risadas do fato de termos nos assustado daquilo. E isso é realmente muito natural, pois mesmo crianças têm esse estranho desejo de sentir medo, com as histórias de fantasmas e monstros que são muito convincentes quando contadas à noite, à luz de velas ou ao redor de uma fogueira, principalmente antes de dormir.

Aliás, para especificar: quando falo de "histórias de horror", me refiro àquelas que têm por temática central o sobrenatural, ou que deixam subentendido que nela atua algo de fora da realidade comumente aceita por nós como verdadeira.

Histórias de horror se distinguem do horror na ficção científica porque esta última tenta explicar (ou deixar sugerido que se possa um dia tentar explicar) os fenômenos de forma racional, quantificável e previsível pela consciência. Ainda que existam histórias de horror próprias da ficção científica, como os clássicos Guerra dos Mundos e Invasores de corpos, não é a mesma coisa. Nas histórias de horror da ficção científica, temos sempre a segurança de que o chão é sólido, de que tudo em que acreditamos até hoje continua valendo, mesmo se descobrimos que nossa espécie foi criada por alienígenas medonhos ou que estamos todos vivendo dentro de uma realidade virtual induzida por computadores a muitos séculos. As leis da física não mudam ou, se mudam, são substituídas por outras leis mais amplas e complexas, e é assim mesmo o mecanismo pelo qual a Ciência trabalha. Estas histórias podem assustar, mas dão sempre no final a impressão de que são teorias alternativas e mirabolantes a respeito da estrutura do mundo concreto.

Histórias de horror se distinguem das histórias do horror urbano ou de policiais, de detetives, os ditos suspenses, porque esta é a categoria reservada para horrores já cotidianos, ou exagerados para tornar a narrativa chocante. Aí se encaixam as personagens dos assassinos seriais, líderes políticos e os outros tantos monstros que são pessoas de carne e osso como nós, ainda que sejam tão perturbados que possamos questionar se são realmente humanos. Entretanto, volta e meia vemos notícias nos jornais que corroboram estas histórias, mostrando-nos que este tipo de horror é bem palpável, bem possível... Por um lado, é mais horrível ainda mas, por outro, nos conforta com a clareza de que o mundo ainda é o mundo, e o horror que alguns de nós praticam é mais uma dimensão da natureza, humana ou não. Como melhores exemplos, cito O silêncio dos inocentes e Monster - desejo assassino, que são sérios e profundos. Infelizmente, de uns tempos pra cá, têm sido produzidas algumas obras bem sofríveis, e até mesmo desrespeitosas, visto que banalizam e vulgarizam a violência e a doença mental, torcendo-as num formato "clean" vendável, retratando o horror como um simples exercício de idéias distorcidas e intrincadas, tais como Jogos mortais e O amigo oculto.

Histórias de horror se distinguem das narrativas sobre o horror da guerra, que são vistas hoje tanto na ficção e na literatura histórica quanto nos noticiários sobre o Oriente Médio e o nosso Estado de São Paulo. Falei sobre isso um pouco no dia dez deste mês, aqui no b'log. A guerra é o espaço limite da civilização: ao mesmo tempo motivador de invenções tecnológicas e controlador de excedentes populacionais, conduz a violência ao seu ápice, transforma nossa condição em algo mais baixo, mais vil, mostrando que somos capazes de atos inaceitáveis, e mesmo impensáveis, dentro do ambiente social habitual. Não há muito mais o que dizer sobre isso... A guerra é uma expressão do horror incontrolável, absoluto e, ao longo de nossa história, nunca estivemos completamente livres deste tipo de pesadelo desperto. As duas terríveis Grandes Guerras Mundiais foram a derrocada das esperanças de harmonia no ideário da Modernidade, as quais muitos de nós estamos tentando até hoje recuperar, ou substituir por algo mais sólido e duradouro. Filmes que falam sobre este assunto, com ênfase no horror psicológico, existem muitos e muito bons, com destaque para Nascido para matar (Full metal jacket) e Alucinações do passado (Jacob's ladder); existem, claro, outros muito tenebrosos em diversos sentidos, de tão mal feitos.

Histórias de horror podem mesmo enfocar simplesmente o plano do horror psicológico, a vulgarmente chamada loucura, que pode ser tanto a loucura de um sujeito isolado quanto a loucura de uma comunidade inteira. Sem necessariamente mostrar conseqüências concretas, como no caso da destruição e da agressão física, este gênero tende a explorar o sofrimento humano mais realista. Aliás, as narrativas deste estilo são comumente narrativas que trazem críticas, sejam com respeito ao sistema de saúde mental e seus métodos de tratamento, seja com relação à dinâmica das instituições, como a família, a escola, a política, etc. Nosso querido Nelson Rodrigues foi um mestre deste tipo de construção argumentativa; ainda que por vezes deslanchasse em delírio, nunca perdia contato com o centro de orientação que o conduzia. Este tipo de horror é o que sustenta os outros tipos, e podemos dizer que está incluído dentro de todos eles; cito-o isoladamente porque pode se apresentar neste formato particular.

Histórias de horror podem ainda ser trabalhadas no nível do horror fantástico, do absurdo assumido, que são o que fazem geralmente nos filmes sobre vampiros, lobisomens e mortos-vivos, etc. Digo "assumido" no sentido de que sequer tentam parecer próximos da realidade; pressupõem que o espectador "entre no jogo", aceite desde o começo que certas maluquices totalmente implausíveis são fatos concretos naquele momento. Partindo daí, certos filmes podem ser realmente muito bons, inteligentes e assustadores; ainda que não sejam "sérios", criam tramas sombrias, semelhantes aos antigos contos de fadas (para quem não sabe, por exemplo, a Chapeuzinho Vermelho morre no fim da historinha infantil em sua versão original). Cito os diretores Argento e Romero, este último com o clássico A noite dos mortos-vivos; na década de oitenta, O lobisomen americano em Londres e o primeiro Pesadelo (Nightmare on Elm Street) marcaram lugar junto com todos aqueles filmes sobre Drácula, que teve sua versão mais aprofundada bem mais tarde com Coppola, em Drácula de Bram Stoker, que aliás muitos dizem que não é horror. Esta sim é uma lista longa, a do horror fantástico, nem vou tentar entrar no mérito. O valor que vejo neste tipo de narrativa é exatamente esta liberdade criativa, este gosto de "conto da Carochinha" para adultos, esta natureza fabulosa do imaginário humano, delirante, porém com certo sentido simbólico, como os pesadelos noturnos mais insólitos. Desconsidero, claro, a categoria do horror esculacho, que foi de onde surgiu o gênero "terrir", mistura de terror com rir; este tipo de narrativa não chega a muito mais do que sustos repentinos e imediatamente engraçados, mal-estar por causa de cenas nojentas, e são mais um gênero de diversão bizarra, de uma estética exótica e escatológica, do que realmente horror.

Portanto, entendo que, para a maioria das pessoas, a coisa fica por aí, nestas categorias que citei: horror mesmo é isso, não tem como "levar a sério" qualquer coisa que não seja delimitada pelos nossos padrões de realidade concreta e cientificamente explicada. Existe apenas o que vemos todos os dias, e não tem sentido nós nos preocuparmos com as almas dos mortos ou alienígenas mal-intencionados se um ladrão, um motorista bêbado ou um sociopata são problemas com os quais realmente temos de lidar. Saudável é quem consegue separar o horror fantástico, de função simbólica e imaginária, do horror real, seja o urbano ou da guerra.

Aliás, esse é um aspecto interessante do componente irracional de nós seres humanos: pergunte a alguém se ele acredita em vampiros, demônios ou coisas do gênero (supondo que "acreditar" é sinônimo de "acreditar que existe e que pode acabar aparecendo ali na frente do sujeito"), e veja a diferença de fazer esta pergunta às três da tarde no parque da Redenção e às três da manhã num quarto pouco iluminado, de preferência com uma janela que dê vista para uma lua cheia sobre um cenário ermo, sem energia elétrica. Bem, se nossa civilização se "libertou" das "crendices sem sentido" que permeavam as comunidades humanas anteriores, por outro lado não deixamos os sentimentos que acompanham certas imagens, conceitos, sensações, totalmente de lado.

E há muitas outras dimensões da nossa natureza humana que são comparáveis a de nossos ancestrais, dada nossa natureza destrutiva. Vejamos, por exemplo, a escalada da violência ao redor do esporte nacionalmente consagrado, o futebol (literalmente "ao redor", porque a violência não está tanto no campo quanto nas arquibancadas). Por um lado, isso não é um fenômeno repentino, e veio evoluindo nas últimas décadas; o futebol tornou-se progressivamente mais violento, refletindo o trajeto da nossa sociedade como um todo. Por outro lado, este tipo de coisa sempre existiu, desde os "circos" dos romanos e antes ainda. O que muda é a configuração, a escala, a intensidade, a possibilidade de controle, o nível de danos provocados. Mas a agressividade em si é da nossa natureza, assim como a esperança, assim como a compaixão, assim como o medo... principalmente o medo do desconhecido.

Por isso mesmo, entendo que há uma última, e pouco considerada, categoria: o horror realista, que é a narrativa que se apresenta de forma convincente, mesmo tratando de um tema sobrenatural o qual, por definição, não é real. Este tipo de história assusta não só na imagem, no som, na narrativa apresentados, como também no conceito e na possibilidade de que seja verdade. Vejamos... temos o caso paradigmático de A bruxa de Blair que, todos sabemos, trata-se de ficção mas que, no formato apresentado, propôs a ficção de ser um caso real. Muita gente acreditou, pelo menos por algum tempo, que a lenda da bruxa era de verdade. Há outros casos, não me recordo agora, e agradeço aos leitores que puderem contribuir com nomes. É uma qualidade de "beirar o real" que existe em outros gêneros: na ficção científica, há os filmes sobre alienígenas, que são um mito vivo de nossos dias, como no título Incidente em Roswell. De qualquer modo, é mais comum hoje encotrarmos pessoas ditas "esclarecidas" que levem à sério visitantes alienígenas do que visitantes de um mundo espiritual. Quando se trata com o sobrenatural, é inevitável tratarmos com a religião, pois ambos coexistem no mesmo plano de percepção do mundo: de que existe um outro mundo, imaterial, espiritual, imortal, que é para onde vamos quando morremos e de onde, em certas excessões não-naturais (sobrenaturais), alguns voltam.




trecho de artigo publicado originalmente (na íntegra) em:
onirosvidadesperta.blogspot.com/2006/07

sexta-feira, 25 de março de 2011

o tempo é cruel (resenha)



E Suspiria não resistiu ao tempo. O filme de Dario Argento, realizado em 1977, é um daqueles produtos vendidos pela excelência, mas que ao assistir a gente fica se perguntando: por quê?


Cinema que mistura os gêneros de horror giallo (assassino em série) e fantástico, Suspiria conta a história de uma jovem norte-americana que vai aprender balé numa escola no interior da Alemanha. Detalhe: apesar do local, o filme é falado em italiano.


O começo empolga. A trilha abre os créditos instalando um terror crescente por meio do uso intenso de violino e de um coro de vozes de uma canção infantil lembrando O Bebê de Rosemary. Os enquadramentos precisos, a iluminação, a tempestade noturna e as cores berrantes criam uma ambientação promissora. Aliás, a trilha, a fotografia e os cenários são os recursos utilizados para encobrir os péssimos atores, o roteiro fraco, os truques baratos e os parcos recursos de um filme do gênero.


A história envolvendo um suposto serial killer em nenhum momento convence, pois o cenário surreal e a iluminação (Argento abusa do vermelho, com direito a sangue de catchup) deixam clara a explicação sobrenatural para a trama. Há cortinas esvoaçantes e mudanças bruscas de cores, no clima de mansão mal-assombrada.


Contando a favor de Suspiria, há uma sequência realmente assustadora na segunda metade do filme (provavelmente inspirou John Carpenter em Halloween). Entretanto, não livra a película da mediocridade.


Falta sangue, ameaça, tensão e, principalmente, o elemento perturbador em Suspiria. Não existe no filme aquela ideia por traz do enredo que faz a plateia se arrepiar. Algo que está presente em um filme recente de Argento, Jenifer, feito para a série Mestres do Horror.


Difícil imaginar que o público de hoje, acostumado a banhos de sangue, se impressione com Suspiria. Contudo, não faltam cinéfilos para chamarem o filme de obra-prima.