







Para os admiradores de Wolverine, X-Men – Primeira Classe é a prova de que ele não é indispensável para que se faça um grande filme sobre os heróis mutantes.
O filme segue a onda do momento em Hollywood, mostrar como tudo começou, são os chamados prequels. Bons exemplos recentes dessa leva são “Batman Begins” e o último “Star Trek”. Entretanto, nenhum desses dois filmes alcança a excelência de X-Men – Primeira Classe.
O filme tem um início idêntico (muito parecido para ser mais honesto) com o do primeiro filme: Segunda Guerra Mundial, Polônia, 1944. Só que agora se apresenta como começou a história de Erik “Magneto” (interpretação marcante de Michael Fassbender), o futuro grande vilão da saga. Aliás, a interpretação e a qualidade dos personagens principais é um dos grandes prazeres de ver este filme.
Professor Charles Xavier (James MacAvoy), Erik (Fassbender) e o vilão Sebastian Shaw (Kevin Bacon, que faz pensar que não há melhor escolha para o papel) se unem através de um arco dramático construído no estilo das melhores tragédias já encenadas. Shaw é um nazista com mente e coração nazistas, mas muito longe de ser interpretado de um modo caricato, pelo contrário, tem toda a classe e inteligência dos melhores vilões. O Professor Xavier é um Charles Darwin com profundo entendimento e confiança no (do) “humano”. Erik é o homem triste movido unicamente por um sentimento de vingança contra Shaw. A partir do encontro dessas três visões e sentimentos de mundo, surgirão todos os conflitos que tornam essa história o que muitas vezes a vida não é, verossímil.
É fascinante acompanhar o desenrolar da trama sabendo como as coisas vão terminar (X-Men - O Confronto Final). Tudo tem um forte combustível humano para explicar e justificar os comportamentos e as mais angustiantes escolhas: ódio, dor, medo, ressentimento, amor, compaixão.
A edição é primorosa ao ligar todas as informações e todos os personagens de maneira elegante, inteligente. Há a concisão de um conto de Hemingway e a fluidez de um romance de Ian McEwan a serviço de uma história com o peso de uma peça de Shakespeare.
“Primeira Classe” tem um trabalho de direção impecável de Matthew Vaughn (responsável pelo também excelente Kick Ass). Sabe ser discreto na hora certa e sabe, acima de tudo, que a imagem deve estar a favor da narrativa, ou melhor dizendo, que no cinema a imagem é a melhor forma de narrar. A cena em que o Professor Xavier enxerga a lembrança mais alegre de Erik é comovente, mostrando que cinema são lágrimas; a cena em que Erik ergue aos céus um submarino é espetacular, mostrando que cinema é mágica.
Ao final da sessão ficam duas certezas: que dificilmente será exibido um filme melhor nos cinemas este ano e que poucos filmes com humanos são tão “humanos” quanto este filme com mutantes.






Os filmes de "caça ao serial killer" sempre foram tidos como um gênero menor, como filmes "B". Raramente mereceram por parte do público uma atenção que fosse além da sala de projeção. Basicamente, os espectadores esperavam por sustos e pela surpreendente revelação do final. E quanto a isso eles não podem reclamar, pois o cinema americano traz todos os anos inúmeros exemplares do gênero. Agora, um exemplar do gênero como Zodíaco é raro, se não único.
Em 1968, jornais de São Francisco, CA, começam a receber mensagens cifradas de alguém que diz ser o responsável por uma série de assassinatos acontecidas em cidades próximas. O suposto assassino, que se identifica pelo nome de Zodíaco, ameaça dar sequência aos crimes caso os jornais não publiquem as mensagens.
No filme dirigido por David Fincher (Seven, Clube da Luta) acompanhamos os jornalistas do São Francisco Chronicle, Robert Graysmith (Jake Gillenhaal) e Paul Avery (Robert Downey Jr), e os policiais David Toschi (Mark Ruffalo) e William Armstrong (Anthony Edwards) nas investigações para tentar chegar à pessoa que se esconde por trás do codinome Zodíaco.
Fincher sempre se destacou pelo primoroso trabalho técnico. Porém, nesse filme ele superou as expectativas. Desde a primeira tomada exibindo a noite de São Francisco iluminada pelos fogos de artifício é impossível não dizer que poucos trabalhos de fotografia no cinema conseguiram captar de forma tão esplendorosa um cenário urbano. Juntamente com a fotografia de Harris Savides, os trabalho de direção de arte e de figurino conseguem ir além das monótonas reconstituições de época. A sensação ao assistir a Zodíaco é de estar vendo um filme que foi rodado na década de 60 com a tecnologia do século XXI.
Impressiona a facilidade com que o filma transita por vários gêneros, passando do terror para a comédia e da comédia para o drama de forma bastante convincente. Aliás, grande parte da força do filme se deve a alternância de situações dramáticas e cômicas, onde o diretor consegue construir um jogo de contrastes que causa surpresa e nervosismo no público. Difícil não ficar aflito com a cena que mostra um casal de namorados sendo atacado de forma tão violenta na beira de um lago em uma bela tarde de primavera. É como colocar um filme de terror dentro de uma comédia romântica.
Apesar de as sequências de assassinato estarem presentes e serem muito bem construídas, elas são secundárias no filme. O que interessa ao diretor é explorar a obsessão dos personagens para descobrir quem é o Zodíaco. Esse enfoque revela uma evolução do cinema de Fincher se comparado ao seu primeiro filme policial. Em Seven as angústias dos personagens ficavam em segundo plano com relação ao jogo sádico do assassino, em Zodíaco o jogo é figurativo e os personagens são a essência.
O que contribui para essa escolha do diretor é o excelente trabalho do elenco. Principalmente de Robert Downey Jr, que interpreta o jornalista Paul Avery com total naturalidade, mostrando que atuar vai muito além de usar o verbo e as lágrimas.
Outro destaque é o roteiro escrito por James Vanderbilt. Ele consegue registrar de forma muito precisa todos os detalhes que envolveram o caso: o nome das pessoas, dos lugares, a coleta de evidências e a consulta de datas e documentos. Graças à mágica da edição, usada com a sabedoria de quem entende que não apenas as palavras dialogam, mas as imagens também, torna-se um prazer acompanhar um filme que durante os seus mais de 150 minutos nunca se torna confuso ou cansativo.
Zodíaco mantém o foco no processo de apuração e principalmente nas dificuldades que atrapalham ou que muitas vezes inviabilizam esse processo. Entre as quais a vaidade, que acaba colocando jornalistas e policiais em campos opostos, terminando por comprometer a investigação. O filme também ressalta de forma muito perspicaz as dificuldades de se trabalhar em conjunto numa época em que computador era artigo militar.
Ao abordar o trabalho de duas profissões que lidam com a "verdade" e que buscam obsessivamente encontrar respostas, Zodíaco parece afirmar que todas as vezes que o ego fica acima do compromisso e a tecnologia abaixo do esperado a única certeza que resta é a da dúvida.





Os filmes de James Gray provocam uma profunda experiência cinematográfica e humana. Quando um artista domina os códigos da sua arte e, além disso, consegue usar essa linguagem para abordar os mais angustiantes conflitos das relações humanas e do homem diante das suas escolhas, ele nos possibilita viver ou reviver algo que raramente o “mundo real” nos apresenta de forma tão intensa.
O espaço do cinema de Gray é o da família. O que os pais esperam dos filhos, o que os filhos esperam dos pais, o que todos esperam da vida, e afinal o que a vida tem a oferecer. Em Amantes (Two Lovers), Leonard (Joaquin Phoenix) é romântico, passional e bipolar, o que significa ser o típico personagem que dança na beira do abismo, debatendo-se perante a escolha pelo afeto e a compreensão de Sandra (Vinessa Shaw) e a paixão por Michelle (Gwyneth Paltrow).
Um grande cineasta não precisa de palavras para falar, ele usa o que a sua arte lhe oferece: uma câmera, um espaço e alguns rostos, nesse caso “todos os rostos” de Joaquin Phoenix. A câmera de Gray é a radiografia da dor, e a dor se apresenta num olhar perdido, numa foto de infância, num encontro num terraço de edifício ou num gesto de adeus.
O dilema não precisa ser dito, ele aparece num simples movimento: a câmera acompanha Sandra saindo do quarto de Leonard e retorna em direção à cama onde ele está sentado sendo guiada pelo seu olhar para a janela que mostra o apartamento de Michele. É o fluxo de consciência transformado em imagem.
A carência afetiva e a conturbação psicológica de Leonard ficam expressas numa Nova York cheia de gente, mas onde todos vivem sós na multidão. Na balada, a música alta, a dança e o agito servem como uma tentativa frustrada de abafar o silêncio, a melancolia e a sensação de abandono presentes em todo o filme porque fazem parte da natureza dos personagens (se é que também não fazem parte da natureza humana). Os silêncios e as palavras não ditas de um encontro mal-sucedido só são quebrados pelo vento gelado de um inverno que parece não ter fim (o da alma).
Em “Amantes” não há espaço para alívio cômico, cinismo, frases de efeito ou “belas declarações de amor”. Raros filmes mostram o quanto dizer “eu te amo” pode ser a coisa mais honesta, emocionante, angustiante e dolorosa de se dizer a alguém.
No final, o olhar de cumplicidade, afeto, resignação e compreensão trocado entre mãe e filho são a mais contundente constatação de que o homem e as suas escolhas, os seus desejos e sonhos são insignificantes diante da indiferença ou das escolhas, dos desejos e sonhos que a vida nos permite.

E Suspiria não resistiu ao tempo. O filme de Dario Argento, realizado em 1977, é um daqueles produtos vendidos pela excelência, mas que ao assistir a gente fica se perguntando: por quê?
Cinema que mistura os gêneros de horror giallo (assassino em série) e fantástico, Suspiria conta a história de uma jovem norte-americana que vai aprender balé numa escola no interior da Alemanha. Detalhe: apesar do local, o filme é falado em italiano.
O começo empolga. A trilha abre os créditos instalando um terror crescente por meio do uso intenso de violino e de um coro de vozes de uma canção infantil lembrando O Bebê de Rosemary. Os enquadramentos precisos, a iluminação, a tempestade noturna e as cores berrantes criam uma ambientação promissora. Aliás, a trilha, a fotografia e os cenários são os recursos utilizados para encobrir os péssimos atores, o roteiro fraco, os truques baratos e os parcos recursos de um filme do gênero.
A história envolvendo um suposto serial killer em nenhum momento convence, pois o cenário surreal e a iluminação (Argento abusa do vermelho, com direito a sangue de catchup) deixam clara a explicação sobrenatural para a trama. Há cortinas esvoaçantes e mudanças bruscas de cores, no clima de mansão mal-assombrada.
Contando a favor de Suspiria, há uma sequência realmente assustadora na segunda metade do filme (provavelmente inspirou John Carpenter em Halloween). Entretanto, não livra a película da mediocridade.
Falta sangue, ameaça, tensão e, principalmente, o elemento perturbador em Suspiria. Não existe no filme aquela ideia por traz do enredo que faz a plateia se arrepiar. Algo que está presente em um filme recente de Argento, Jenifer, feito para a série Mestres do Horror.
Difícil imaginar que o público de hoje, acostumado a banhos de sangue, se impressione com Suspiria. Contudo, não faltam cinéfilos para chamarem o filme de obra-prima.